Fiscal e Tributário

Renúncia fiscal não é gasto invisível — como ler o Demonstrativo de Gastos Tributários

Um exercício curto de leitura: a renúncia aparece no orçamento como renúncia de receita, e é gasto na prática. A diferença entre os dois olhares explica muita discussão fiscal mal colocada.

Ilustração abstrata da editoria
Ilustração: A Pauta

Existe uma assimetria de vocabulário que atrapalha o debate fiscal brasileiro. Um benefício concedido por lei é chamado de renúncia de receita — como se fosse dinheiro que nunca existiu. Mas ele produz exatamente o mesmo efeito de um gasto: alguém deixa de pagar, e o restante paga por isso.

O documento que quase ninguém abre

O Demonstrativo de Gastos Tributários, publicado junto com o orçamento, lista essas renúncias por tributo e por finalidade. É um retrato do Estado escolhendo gastar por via indireta, sem passar pela mesma disputa orçamentária de um programa social ou de um investimento em infraestrutura.

Ler esse documento muda o enquadramento de duas discussões comuns:

  • "A carga tributária é alta." Alta em relação a quê, e considerando que parte dela já foi renunciada antes de ser arrecadada?
  • "Precisamos de incentivo para o setor X." Todo incentivo é uma escolha distributiva. Se não aparece na peça orçamentária, a escolha é feita em silêncio.

Por que escrevo sobre isso

Questão fiscal não é assunto de economista. É decisão sobre quem paga, quanto e por quê — e isso é matéria de direito, contabilidade e política, nessa ordem de competência e não de importância.


Texto de exemplo.

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